9ª Etapa: Beran – Feas
O início deste dia foi chuvoso, mas ao entrarmos na Galiza fomos recebidos por um enorme arco-íris, prenúncio de melhoria no tempo. Chegados a Beran com sol, iniciamos a subida da bela aldeia, rumo à Capela de San Roque, onde um artístico marco evoca o Caminho da Geira e do Arrieiros de Braga a Beran e um cruzeiro numa plataforma, atesta a importância religiosa do local.
Voltamos ao caminho no bosque frondoso, ao ar puro, à vegetação luxuriante em cores outonais e à subida da encosta, umas vezes suave, outras mais inclinada…
Chegados à aldeia de Lebosende, percorremos um pequeno troço rural com casas antigas e chegamos à Igreja de San Miguel de Lebosende, posicionada num local altaneiro, oferecendo um belíssimo miradouro sobre o município de Leiro e, no horizonte, os montes outonais e o céu carregado de nuvens. Lindo!
Rapidamente saímos da aldeia, abandonando os vinhedos e, mais uma vez, usufruir da natureza pura do grande bosque de vegetação autóctone – a chamada ‘Floresta Encantada’, que nos encantou pela sua grande beleza, levantando alguns desafios no caminho (piso molhado, enlameado, árvores tombadas, vegetação que estreita a passagem). Este território selvagem, as cores outonais, o chão coberto de folhas coloridas, transportou-nos para um universo cinematográfico de filme de exploradores aventureiros, embora a subida não fosse ficção!
Mas a ‘Floresta Encantada’ dá lugar à ‘Floresta Assombrada’, quando passamos junto à casa do eremita criativo, que decorou o seu entorno recorrendo à reutilização de objetos, imprimindo uma certa aura de território macabro. É interessante como alguém se isola da sociedade e sobrevive na floresta, sem as condições, consideradas mais básicas para nós, como a electricidade ou água canalizada. Logo, a nossa imaginação voa até aos filmes de suspense/terror, onde o eremita é o mau que caça os peregrinos mais desprevenidos… Mas a realidade é que ele escolheu um sítio maravilhoso da floresta para viver, junto a um pequeno ribeiro e, certamente será uma pessoa boa, pois avistamos gatinhos à janela, saindo fumo pela chaminé, num cenário quase bucólico…
Mas o ambiente cinematográfico ainda não tinha terminado, pois, mais adiante, metida em plena fraga, surge-nos a aldeia abandonada de Viñoa, com os restos das suas grandes casas de pedra engolidas pela vegetação abundante. A este cenário de uma beleza melancólica, juntou-se uma áurea de névoa, uma humidade e cheiro intenso nunca sentido antes, transportando-nos para um cenário feérico. Era como se, por alguma magia das fadas da floresta, nalguma esquina se pudesse vislumbrar a Viñoa do passado ganhar vida… homens e mulheres, trabalhadores esforçados transformando a natureza a seu favor, vivendo o seu dia-a-dia com esperança. Mas a evolução dos tempos trouxe uma imensa emigração, levando à falta de mão-de-obra e à desertificação do mundo rural. Então, a natureza reclama para si os espaços do Homem.
A certa altura o caminho tornou-se descendente, ladeado por muros altos com pedras incrustadas servindo de escadas de acesso aos socalcos - vestígios dos trabalhos agrícolas do passado e também do presente (na zona final do caminho existiam hortas cultivadas).
Eis-nos chegados (novamente à margem do rio Avia), do outro lado, Pazos de Arrenteiro – “único Conjunto Histórico-Artístico, desde 1973, que existe no rural galego (…) é uma das jóias melhor conservadas em termos de arquitectura galega (…) com 1000 anos de história documentada.” (in, painel informativo)
Do lado de cá, o nosso autocarro com o farnel do almoço. Repostas as energias, entramos na aldeia medieval, ao encontro de um velho conhecido de outras passagens por aqui. Houve conversa e cantigas lusas com este galego casado com uma portuguesa e, claro, prova dos licores que produz artesanalmente. Não é à toa que esta aldeia foi classificada, pois o edificado testemunha a importância do território no passado: casas senhoriais, edifícios utilitários (p.e. casa do ouro), a imponente igreja românica de San Salvador (sec.XII) e, claro, as vinhas, sempre as vinhas.
Atravessamos a aldeia rural e seguimos caminho pela encosta. Lá em baixo, o Avia e uma mini-hídrica, ao nosso lado, os muros em pedra sustêm os socalcos dos vinhedos. E entramos novamente na zona florestal, com o caminho sempre a subir e o Avia já fora de vista.
Continuando a subida, surge-nos a aldeia Iglesario e aqui acontece uma peripécia: um grupo seguiu a seta do Caminho Minhoto Ribeiro, outro, a seta do Caminho da Geira e dos Arrieiros Resultado – todos deveríamos ter ido pelo CMR. Alguns habitantes locais, percebendo a nossa hesitação no caminho a seguir, certificou-nos que esse era o CGA e que o outro caminho estava em mau estado. Lá seguimos o CGA, perdendo a oportunidade de apreciar a igreja barroca de San Miguel de Albarellos, mas “ganhando” um percurso de subida sempre em estrada no meio da floresta, passando pela Capela de Paredes. O grupo CMR percorreu um percurso mais difícil, mas lá nos juntamos, mais adiante, num cruzamento das estradas.