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O SALÁRIO NÃO PODE FICAR NA ESTRADA


20 setembro 2026

Notícias FNE

O SALÁRIO NÃO PODE FICAR NA ESTRADA

FNE alerta para o peso crescente das deslocações no rendimento dos professores e defende medidas de atração e fixação que tenham em conta o custo real de trabalhar longe de casa.


O aumento do preço dos combustíveis volta a colocar em evidência um problema que afeta milhares de professores: o custo de se deslocarem diariamente entre a residência e a escola onde estão colocados. Para muitos docentes, trabalhar implica percorrer dezenas de quilómetros todos os dias, suportando despesas que consomem uma parte significativa do rendimento mensal.

Os dados analisados pela FNE ajudam a perceber a dimensão do problema. Um professor que percorra 60 quilómetros por dia no trajeto casa–escola–casa, utilizando um automóvel com um consumo médio de 7 litros aos 100 quilómetros, poderá gastar atualmente cerca de 199 euros por mês em gasóleo ou 191 euros em gasolina, considerando 22 dias de deslocação.

Tomando como referência 220 dias de deslocação ao longo do ano, esse professor percorrerá cerca de 13.200 quilómetros, consumindo aproximadamente 924 litros de combustível. Só em combustível, a despesa anual poderá aproximar-se dos 1.992 euros num automóvel a gasóleo e dos 1.911 euros num automóvel a gasolina.

E estes valores representam apenas uma parte do custo efetivamente suportado. Portagens, estacionamento, manutenção, revisões, pneus, seguros, impostos e desvalorização da viatura fazem aumentar significativamente a despesa associada ao simples ato de ir trabalhar.


Milhares de professores percorrem grandes distâncias

Os resultados da Consulta Nacional da FNE confirmam que as deslocações longas não são uma situação residual.

Um em cada seis professores percorre mais de 60 quilómetros por dia e quase um em cada dez percorre mais de 90 quilómetros diariamente para chegar à escola onde está a trabalhar.

A partir da distribuição das respostas, a FNE estima, de forma conservadora, uma deslocação média de aproximadamente 33 quilómetros por dia, o que representa cerca de 7.000 quilómetros por ano em deslocações associadas ao trabalho, tomando como referência 210 dias de deslocação.

Na estimativa dos encargos com deslocações não é considerada a totalidade das deslocações inerentes ao exercício da profissão, incluindo as que decorrem de reuniões, avaliações, exames, atividades escolares, formação e outras responsabilidades profissionais realizadas ao longo do ano.


Trabalhar longe não pode significar, pagar para trabalhar.

Num contexto em que o sistema educativo continua a enfrentar dificuldades na atração e fixação de professores em determinados territórios e grupos de recrutamento, não é possível ignorar o impacto que a distância, a habitação e as deslocações têm na decisão de aceitar ou manter uma colocação. Por isso, não é de estranhar que, apesar de existirem cerca de 11.000 docentes nas reservas de recrutamento, continuem por preencher necessidades das escolas. A existência de professores em reserva não significa que estes estejam disponíveis para aceitar qualquer horário, em qualquer ponto do país e independentemente dos custos que essa colocação implica. Quando a distância, a deslocação ou a necessidade de manter uma segunda habitação absorvem uma parte significativa do rendimento, o problema deixa de ser apenas a existência de professores e passa também a ser a criação de condições que tornem possível e sustentável aceitar uma colocação.

A FNE defende, por isso, uma política de atração, apoio e fixação de professores que considere o custo real das deslocações, a distância entre a residência e o local de trabalho, os encargos com habitação e as diferentes realidades territoriais, garantindo respostas eficazes.

Nesse sentido, a FNE vai enviar ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), ainda esta semana, uma proposta de Estatuto de Apoio e Fixação Docente, com medidas concretas que contribuam para dar resposta às dificuldades que hoje impedem o preenchimento de necessidades em muitas escolas. O objetivo é conciliar duas prioridades que têm de caminhar em conjunto: garantir que nenhum aluno fica sem aulas por falta de professor e assegurar aos docentes condições dignas e economicamente sustentáveis para aceitar e manter uma colocação.

Este Estatuto insere-se numa estratégia mais ampla de valorização e dignificação da profissão docente. Para a FNE, responder à falta de professores não passa apenas por formar e recrutar mais docentes: exige também criar condições para que os professores que já existem possam trabalhar onde são necessários sem que a distância, a habitação ou as deslocações absorvam uma parte desproporcionada do seu rendimento.


Trabalhar longe não pode significar, pagar para trabalhar.

 

Porto, 20 de setembro de 2026

A Comissão Executiva
Federação Nacional da Educação

 


Informação complementar com os dados, cálculos, pressupostos e elementos de enquadramento utilizados pela FNE na análise do impacto das deslocações dos professores.

Consulte aqui em PDF o folheto "Dar aulas não pode custar o salário"








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